terça-feira, 3 de abril de 2012

São Luís, capital americana da cultura

A cidade maranhense, que completa 400 anos em 2012, foi eleita o principal centro histórico e cultural do continente


   O ano de 2012 será especial para a cidade de São Luís do Maranhão. Além de comemorar 400 anos, a única capital brasileira fundada por franceses foi eleita Capital Americana da Cultura.

   O conceito de Capital Cultural surgiu em 1985, quando a então ministra da Cultura da Grécia, Melina Mercouri, propôs uma iniciativa intergovernamental que ajudasse a valorizar e promover a riqueza cultural europeia. A primeira Capital Europeia da Cultura foi Atenas, e o sucesso da experiência disseminou a ideia. Em meados da década de 1990, foram criadasvas Capitais da Cultura árabes e americanas.

   Para vencer a eleição, São Luís apresentou um projeto cultural que foi analisado por um comitê ainda em 2010. Depois de certificada, no ano seguinte, foi realizada uma campanha com votação popular para eleger os sete tesouros do patrimônio cultural material da cidade. Foram eleitas a Azulejaria, o Convento das Mercês, a Igreja da Sé, o Palácio dos Leões, a Praça Gonçalves Dias, a Rua Portugal e o Teatro Arthur Azevedo.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Democracia, uma obra inacabada

Em 2012, São Paulo ganhará museu que conta a trajetória de nosso país até se tornar um Estado democrático de direito


   O Brasil percorreu um longo caminho de lutas para se tornar um Estado democrático de direito, e agora uma instituição pretende contar essa história: o Museu da Democracia, concebido pela Fundação Mário Covas. O projeto da entidade foi elaborado pelo jornalista e escritor Roberto Pompeu de Toledo e pelo historiador Marco Antonio Villa.

    O Museu da Democracia pretende ser um espaço de difusão da cultura democrática por meio de exposições, debates, seminários, cursos e outros eventos. A instituição também vai reunir depoimentos de personagens históricos, documentos, fotos, objetos, textos e vídeos. A primeira etapa do projeto consiste na criação de um museu virtual, a ser lançado até o primeiro semestre de 2012. A sede física do museu ocupará as instalações da antiga Secretaria de Segurança Pública, na avenida Higienópolis, em São Paulo. Ainda não há data prevista para sua abertura. Por enquanto, o processo de criação do museu pode ser acompanhado pelo site oficial da instituição.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Um memorial do holocausto no Brasil

Acervo da instituição, a primeira do gênero em nosso país, aborda a perseguição aos judeus na Europa no século XX e os fluxos migratórios para o Brasil


   Curitiba entrou na lista das cidades do mundo que contam com uma instituição dedicada ao tema das perseguições aos judeus no século XX. Este mês o Museu do Holocausto será aberto à visitação e conta com uma exposição de longa duração que abrange um período que vai da década de 1920 até os dias de hoje. A mostra aborda desde a época pré-nazista na Europa até as consequências do Holocausto para a comunidade mundial, incluindo os fluxos migratórios para vários países, entre os quais o Brasil.

    O acervo inclui documentos, objetos pessoais e simbólicos relacionados ao tema, graças às parcerias com instituições museológicas nacionais e internacionais, além de doações feitas pela comunidade judaica. Um dos exemplos é um fragmento da Torá, o livro sagrado do judaísmo, doado pelo Museu do Holocausto de Jerusalém, e um cartão de racionamento alimentar usado no campo de Buchenwald, na Alemanha.

    Outro objeto curioso é uma réplica da boneca de Zofia Burowska, que viveu nos guetos de Wolbrum e Cracóvia, na Polônia. Depois de passar por vários campos de concentração, ela acabou libertada na Alemanha e recuperou a boneca, que havia sido guardada por amigos não judeus em Cracóvia.

    Durante a visita, as histórias contadas são tristes e há imagens duras, porém não faltam elementos curiosos como o violino exposto em uma das salas do museu. Ele pertenceu ao garoto Mordechai Schlein, que aos 12 anos encantou nazistas com o som do instrumento. Eles não sabiam, porém, que Mordechai, ou Motele como era chamado, roubava explosivos e guardava no estojo do violino. Foi convidado para divertir os oficiais durante semanas e, um dia, depois de tocar acabou explodindo o local com os nazistas dentro, em 1941. O garoto morreu dois anos depois em uma batalha.

    “São cenas difíceis de serem vistas. Mas foram atos cometidos por seres humanos. Então, a ideia é lutar contra a intolerância e fazer com que a gente consiga viver em um mundo melhor”, diz Miguel Krigsner, idealizador do museu. A família do pai do empresário, de origem polonesa, conseguiu escapar do nazismo. Miguel vive no Brasil desde 1961.

    Além de colocar à disposição do público material audiovisual, o museu abre espaço para a discussão e reflexão sobre o preconceito e a violência, tomando a questão judaica como exemplo e abordando também outros exemplos de genocídios ocorridos ao longo do século XX. A coordenação da instituição conseguiu reunir depoimentos de 14 judeus sobreviventes da Segunda Guerra Mundial, que mais tarde se estabeleceram em Curitiba. Entre elas está a polonesa Bunia Finkel, que passou 495 dias dentro de um buraco cavado em um celeiro. “Meu pai marcava cada dia com um risco”, conta.

MUSEU DO HOLOCAUSTO. ONDE: Rua Coronel Agostinho Macedo, 248, Curitiba (PR). QUANDO: Visitas a partir de 12 de fevereiro de 2012, mediante agendamento, de terça a domingo. CONTATO: www.museudoholocausto.org.br

segunda-feira, 5 de março de 2012

Galileu não foi o primeiro a dizer que a Terra gira em torno do Sol

Suas ideias mudaram tudo o que se sabia sobre o movimento dos astros, certo? Errado!

   É comum atribuir ao italiano Galileu Galilei (1564-1642) a criação do heliocentrismo. Apesar de o astrônomo renascentista ter contribuído muito para a aceitação dessa teoria no meio científico, a ideia de que a Terra se move em torno do Sol já vinha se desenvolvendo desde a Antiguidade.

    No século V a.C., o filósofo grego Filolau formulou pela primeira vez a hipótese de que nosso planeta não ocupava o centro do Universo. Para ele, a Terra girava em torno de um “fogo central”, cuja luz era somente refletida pelo Sol. Posteriormente, no século V d.C., astrônomos indianos elaboraram teorias sugerindo que o globo terrestre orbitava ao redor do Sol e mencionando o que chamaríamos mais tarde de “lei da gravidade”.

    Estudos do tipo continuaram a ser produzidos em plena Idade Média, mas o geocentrismo de Aristóteles e Ptolomeu perdurou, graças à Igreja Católica, como forma mais aceita de entender o movimento do planeta.

    Foi preciso esperar até o século XVI para que o heliocentrismo alcançasse o status de teoria científica, e devemos esse avanço não a Galileu, mas ao médico e astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543). Suas pesquisas resultaram na obra Das revoluções das esferas celestes, concluída em 1530 e publicada em 1543, na cidade de Nuremberg, pouco antes da sua morte.


   O livro contradizia abertamente a Bíblia, e os opositores do heliocentrismo se multiplicaram contra a chamada “revolução copernicana”. A ideia de que a Terra girava em torno de si própria e, assim como todos os demais planetas conhecidos, em torno do Sol rendeu críticas ferrenhas vindas de nomes como Martinho Lutero (1483-1546), que chegou a chamar o cientista de “paspalho”.

    A obra de Copérnico foi continuada por cientistas como o matemático alemão Johannes Kepler (1571-1630) e, principalmente, por Galileu. Suas descobertas confirmaram a coerência do heliocentrismo, do qual o italiano se tornou um defensor fervoroso, e mostraram uma série de falhas no sistema geocêntrico.

    Em 1616, o heliocentrismo foi renegado oficialmente pela Igreja, e a obra-prima de Copérnico foi posta no índex (lista de livros considerados heréticos pela autoridade eclesiástica). Mesmo assim, Galileu continuou seus trabalhos e, protegido pelo papa Urbano VIII (1568-1644), publicou em 1632 o livro Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo, um misto de elogio ao heliocentrismo e escárnio do geocentrismo.

    A repercussão da obra foi enorme e, para seu autor, trágica: Galileu foi condenado à prisão perpétua pela Inquisição e seu texto foi proibido. Graças à influência de Urbano VIII, sua pena foi transformada em reclusão domiciliar, mas o tempo da punição não foi diminuído.

    A censura às obras que defendiam o heliocentrismo só foi revogada mais de um século depois, em 1757, pelo papa Bento XIV (1675-1758). Somente então passamos a redescobrir a genialidade de Galileu, que, embora não seja criador do heliocentrismo, teve um peso inegável na construção da visão que hoje temos do Universo.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Uma ponta de estoque nazista

Folheto de 1926 anunciando roupas e equipamentos do Partido de Hitler como artigos esportivos revela a reorganização militar da Alemanha no período entreguerras


   Em 11 de dezembro de 1926, o comissário especial adjunto da cidade de Lauterburgo, na fronteira entre a França e a Alemanha, escreveu um relatório ao diretor de Serviços Gerais da polícia da Alsácia e Lorena: “Tenho a honra de enviar-lhes em anexo a folha de propaganda de equipamentos das sociedades nacionalistas alemãs, que se encontram hoje em Lauterburgo no trem Ludwigshafen, nº 566, compartimento de 3ª classe. Nenhum viajante alemão encontrava-se no compartimento e não pude identificar por meio de quem essa folha foi colocada nesse trem”.

    Os comissários especiais das estradas de ferro eram uma espécie de ancestrais dos funcionários do Serviço de Informações Gerais da França. Eles exerciam uma verdadeira vigilância política de todo o território francês. De 1915 a 1936, seus relatórios, assim como os dos representantes diplomáticos, além de recortes de jornais, panfletos, cartazes, folhetos e fotografias sobre a Alemanha do período entreguerras, foram reunidos pelo Serviço de Informações. Hoje, estão conservados nos Arquivos Nacionais franceses, na subsérie “Polícia Geral”.

    Naquele ano de 1926, as manifestações dos partidários de Hitler multiplicavam-se, e a propaganda contra o Tratado de Versalhes ou a ocupação da Renânia era cada vez mais virulenta. A campanha, arma de guerra do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP, na sigla em alemão, mais conhecido como Partido Nazista), visava particularmente as regiões da Alsácia e Lorena.

    Por isso, esse folheto de propaganda, encontrado em um trem no mesmo dia da publicação do segundo volume de Mein Kampf, é significativo. A começar pelo título: “Expedição de artigos esportivos”. Observadores da época registraram o incrível desenvolvimento de associações esportivas ou de ex-combatentes, que serviam como uma espécie de “cobertura” à reorganização militar da Alemanha. A descrição desses “artigos esportivos” é edificante: tecidos militares, grevas (faixas de proteção para a canela, usada em uniformes militares), mosquetões, insígnias oficiais etc. Não havia dúvidas: era Hitler que os vendia. Não se encomendava uma camisa do NSDAP, mas uma camisa, boné, casaco ou calça “Hitler”. A suástica aparecia em todos os formatos (emblemas, insígnias, estandartes ou lenços). E as entregas eram feitas em grande quantidade.

    O Serviço de Informações francês recebeu uma série de notas e relatórios que descreviam as demonstrações de força dos nazistas e, posteriormente, sua ascensão ao poder. Dessa forma, o departamento acumularia testemunhos sobre o rearmamento, o antissemitismo ou o surgimento dos primeiros campos de concentração alemães. Na última caixa de arquivo que conservava esses documentos, encontram-se, datados de 1935, relatórios intitulados “Organizações e métodos da Gestapo no exterior”, “Constituição de novas unidades militares na Alemanha”, “Congresso mundial da liga antijudeus de Nuremberg”. Uma mostra de que já estava tudo a caminho.

Transcrição do documento Expedição de artigos esportivos

Lambrecht (Palatinado), Obere Markstrasse 33
Cheque postal Ludwigshagen 10 435.

Preços correntes

A verdadeira camisa HITLER, cáqui, com gravata, todos os membros do partido, boa qualidade: 7,25 marcos a peça

Boné Hitler, cáqui, modelo regulamentar: 2,50 marcos a peça

Casaco Hitler, cáqui: 17,50 marcos a peça

Calça Hitler, cáqui, modelo Breeches, couro inglês: 18,50 marcos a peça

Tecido pura lã, cáqui, para terno Hitler: 16,50 marcos o metro

Tecido militar (Feldgrau): 5,60 marcos o metro

Grevas formato militar 260⁄8 cm (tecido cruzado): 0,75 marcos o par

Braçadeira com suástica: 0,40 marcos a peça

Cinturão (couro) com fivela suástica: 5,80 marcos a peça

Boldrié com fecho-mosquetão: lote por 2,20 marcos a peça

Mochila nova de pele de vitelo com forro de tecido: 5,50 marcos a peça

Galão de champanhe 3⁄4 de litro, recoberto por tecido com fecho-mosquetão: 1,20 marcos a peça

Correia de montaria e gamela: 0,40 marcos

Lona para barraca nova 165 + 165 c⁄m: 15,00 marcos

Insígnia de oficial com suástica: 0,25 marcos

Insígnia de oficial preto-branco-vermelho: 0,20 marcos

Insígnia N.S.P.R.P.: 50 centavos de marco (pfennig)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

José de Alencar em versão digital

Manuscritos inéditos do célebre escritor brasileiro, incluindo trechos de romances inacabados, serão colocados gratuitamente na internet



   Ele era o “inimigo do rei”, nas palavras de seu biógrafo, Lira Neto. Ou, ainda, “um romancista que colecionava desafetos, azucrinava D. Pedro II e acabou inventando o Brasil”. Assim era José de Alencar (1829-1877), o conhecido autor de O guarani e Iracema, tido como o pai do romance no Brasil. Além de criar clássicos da literatura brasileira com temas nativistas, indianistas e históricos, ele foi também folhetinista, diretor de jornal, autor de peças de teatro, advogado, deputado federal e até ministro da Justiça. Para ajudar na descoberta das múltiplas facetas desse personagem do século XIX, parte de seu acervo inédito será digitalizada.

   Vindos de diversos acervos, 29 manuscritos – alguns com mais de 160 anos – serão colocados à disposição do público nos computadores da Casa de José de Alencar, em Fortaleza, em maio. Entre eles, há anotações, rascunhos, croquis, cadernos com trechos de romances e ensaios, e partes de seu primeiro livro, escrito quando tinha 18 anos e não concluído.

   Localizada no bairro de Messejana, a Casa de José de Alencar foi a morada do escritor durante nove anos. Hoje, o local é aberto a visitas e pertence à Universidade Federal do Ceará.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Rio de Janeiro vai recuperar bondes

Com ajuda de Lisboa, capital carioca pretende restaurar uma das principais atrações turísticas da cidade até 2013




   Um acidente em agosto de 2011, com um saldo de seis mortos e 57 feridos, resultou na suspensão das atividades de um dos programas turísticos mais procurados do Rio de Janeiro: o passeio de bonde em Santa Teresa. Recentemente, o governo fluminense anunciou obras de recuperação nas linhas e reabertura prevista para 2013. A solução técnica para revitalizar esses bondes históricos virá da outra única cidade no mundo que mantém um sistema parecido: Lisboa.

    Foi assinada uma parceria técnica com a empresa pública Companhia Carris de Ferro de Lisboa, que mantém o sistema de bondes – ou “eléctricos”, como são chamados – na capital portuguesa. Há várias semelhanças entre os bondes cariocas e os eléctricos lisboetas, que os diferem dos demais trens turísticos em atividade no mundo: os veículos são antigos, com tecnologia do princípio do século passado, operam em linhas com inclinações superiores a 10% e curvas com raios inferiores a 15 metros, sem possuir sistema por cabo ou cremalheira.

    Os bondes de Santa Teresa são os últimos representantes desse tipo de veículo em todo o Brasil que ainda servem para o transporte público. Sua recuperação tem investimento previsto em R$ 40 milhões.